Confissões de um ex-Formador

Em tempos dei formação de Agile e de Scrum em algumas empresas, todas bastante diferentes umas das outras: empresas de grande dimensão com as quais interagimos todos os dias como empresas mais pequenas ou até startups.

Comecei por dar formação por ter uma grande paixão por ensinar e obtive , naturalmente, muita satisfação quando o comecei a fazer.

Mas a verdade é que ao fim de uma dezena de formações começou a tornar-se cansativo: sempre a mesma “matéria”, sempre as mesmas perguntas, sempre as mesmas dificuldades, sempre as mesmas suposições, sempre as mesmas dúvidas e sempre as mesmas expectativas, sempre a mesma descrença, sempre a mesma desconfiança.

Não quer dizer que as interações fossem desinteressantes… inicialmente eram estimulantes e esgotavam-me (num bom sentido) devido à intensidade que trazia para as discussões. Mas a verdade é que ao fim de algum tempo, da repetição, da previsibilidade… acabavam por se tornar monótonas… e apenas obtinha motivação pela parte financeira que a formação representava.

Quando comecei a dar formação o dinheiro era a última motivação que tinha em mente: queria mudar o mundo, a forma das empresas trabalharem, a forma das pessoas pensarem… queria espalhar / evangelizar o Agile e o Scrum pois ainda é uma das minhas paixões nos dias de hoje (já lá vão 7 anos de agilismo).

Como formador já experienciei situações menos boas: desde os formando chegarem atrasados, formandos a dormir (literalmente a dormir) durante a formação, formandos a pedirem para terminar a formação mais cedo, formandos com total desinteresse nos conteúdos, formandos contrariados a assistir à formação, etc.

Mas também já experimentei momentos incríveis: feedback excelente da formação (tanto em termos do formador como em termos dos conteúdos), feedback de que pessoas começaram a implementar Scrum nas suas equipas, ex-formandos a falarem comigo para os aconselhar / guiar, almoços de convívio, partilhas / desabafos de como o Scrum era o que era preciso para a empresa melhorar, etc.

Olhando para os aspectos bons e os menos bons… posso dizer que não me arrependo de ter sido formador e se pudesse voltar atrás voltaria a fazer tudo igual.

Também admito que ser formador contribuiu imenso para o meu crescimento profissional e pessoal. Como podem imaginar é bastante desafiante ter de lidar com: pessoas que estão a dormir à nossa frente, pessoas de backgrounds completamente diferentes (algumas delas não eram do ramo informático), pessoas com idades completamente diferentes (algumas pessoas mais novas e outras velhas que eu), pessoas com ar entediado, pessoas com sede de conhecimento, pessoas entusiasmadas, pessoas perguntadoras, pessoas em situação de conflito, pessoas a criticar a sua empresa e a sua situação atual, etc.

Acho que parei quando tive de parar exatamente porque o que nos move não pode ser (principalmente) o dinheiro. O dinheiro não é uma motivação intrínseca e isso fez com que eu me “reformasse” desta atividade.

Duvido que volte a ter vontade / sentir paixão por voltar a ser formador. Contudo não descarto a possibilidade de uma experiencia a lecionar no ensino superior. Acho que seria um desafio diferente e por conseguinte motivador.

Até para a semana.

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